Eutanasiar um amor
Há similaridades entre perder alguém para a morte e terminar uma história de amor. Dói, machuca, é traumático e não há certezas do que vem depois. Quem já foi para o outro lado do amor consegue voltar para dizer, diferentemente de quem vai para o outro lado da vida. Ressurgimos diferentes, esperançosos de que há uma nova vida possível.
Ninguém duvida de que uma traição é o motivo perfeitamente aceitável para um término, por exemplo. É como um câncer se reproduzindo e destruindo tudo por dentro: as crianças, o financiamento da casa, as férias de verão. Dá vontade de gritar “Por quê?????”. Daí, é aquele esquema de velar, sepultar e sofrer. Porque dói, mesmo. Ô, se dói.
Só que às vezes o amor vai embora a conta gotas, como num Alzheimer. Degenera, esquece, acinzenta. Um declínio lento, mas interrompido por momentos de lucidez iluminados, tão esperançosas que derrubam a certeza do fim. Uma memória, um flash, aquele dia, aquela viagem, aquela luz naquele domingo. E aí passa, retrocede e tudo mergulha num azul escuro de novo.
A causa mortis de um amor em desfazimento tem de tudo e nada é muito definitivo. Insuficiência, choque, falha, sobrecarga, fratura, hemorragia, hemorroida.
Não dá pra saber se o que matou foi a doença ou o tratamento. Teve um pouco de coração, um pouco de cabeça.
Inúmeras despedidas precedem a confirmação da morte de um amor: apertar o botão vermelho, assinar o papel timbrado, dar o último adeus, o abraço derradeiro. Eutanasiar um amor tem o peso do céu. Por sorte, reencarnamos. Recém-nascidos, crianças de novo neste afeto, brincamos com novas ilusões, mas pra sempre marcados pela vida que passou.




Um dos textos mais profundos que já li.