Queremos saber
Penso no que vou fazer com esse tempo que digo querer ganhar ao fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, usando IA adoidado para supostamente agilizar as demandas, parando leituras no meio porque não posso perder tempo lendo livros supostamente ruins e atrapalhando a mim mesmo e aos outros no cinema porque preciso responder uma mensagem no WhatsApp no meio do filme.
Dia desses ouvi o Guilherme Arantes falar de seu ofício com muito amor. Até chorou em determinado momento quando colocou em palavras a dimensão fundamentalmente humana da criação artística. Naturalmente, o papo seguiu para o avanço da IA na música.
A menos que as plateias sejam totalmente substituídas por robôs, não faz sentido criar arte a partir de robôs, disse o cantor. E fez sentido para mim — eu que ainda sou um ser humano —, o único capaz de ouvir uma ideia e pensar: taí, rapaz, gostei!
Quando um artista compõe uma determinada letra de música, penso no que ele pensava, penso pelo que sofria, se foi no Rio de Janeiro, em um avião cruzando o Atlântico ou no fundo do poço, no auge da fama ou no quarto escuro e úmido do ostracismo.
Há perguntas a respeito da criação artística para as quais talvez nunca haja resposta, e isso é desconfortavelmente bom. São djavaneadas ou caetaneadas lindas, inexplicáveis mas ao mesmo tempo absolutamente compreensíveis. Talvez a gente nunca saiba realmente o que o zum de besouro significa. E, quando pergunto se sou neguinha, talvez só eu mesmo tenha a resposta, ninguém mais.
A suposta busca por agilidade na rotina pode ser uma excelente desculpa para nos desviar da vagarosidade da contemplação da arte e da suas ambiguidades e vazios. Em tempos em que o ChatGPT tem resposta pra tudo, soa angustiante assistir a um filme ou olhar para um quadro, perceber as nuances e ainda assim não saber exatamente o que foi pretendido ali.
E se em vez de largar um livro supostamente ruim (porque, afinal, a vida é curta demais para ler livros ruins), a gente fosse até o final? E se a gente não respondesse à mensagem no WhatsApp quando ela chega justo no meio do filme, o que aconteceria? E se a gente encarasse a arte de frente e até o fim, sem se distrair, daria o quê?
O que da vida e da arte (se é que há uma separação) nos incomoda tanto a ponto de nos fazer querer fugir para dentro do celular? O tempo que a gente tenta ganhar a todo custo, como se pudesse acumulá-lo feito dinheiro, acaba virando tempo de tela.




tenho deixado o celular no modo avião no cinema. assim, mesmo que eu dê uma olhadinha, não vai ter nada pra me capturar.
discordo do livro ruim. eu deixo ir. às vezes só não é o momento dele.
e eu acho que vamos esbarrar com muitos produtos comerciais feitos por IA, mas arte é tanto sobre fazer quanto sobre consumir, experimentar. talvez até mais sobre fazer. então a experiência humana ainda é imprescindível.
a arte me livra do ritmo enlouquecedor ditado por tudo que o celular contém. amém.