Verde chartreuse
Minha cor favorita e agora a sua também
Ledo engano. Eu fiz planos, mas me equivoquei. Troquei os pés pelas mãos. Contei pra minha mãe, pedi férias no emprego. Maio é mês de casar, pensei. Varri a casa com vassoura fina, armei rede na varanda enfeitada com bonina, e você não chegou. Foi um vacilo. Um erro de cálculo, uma imprecisão. Achei que era um amor fulminante, mas era só tesão de domingo à noite. Fantástico, né?
A semana começou depressiva, morna, tediosa até a chegada do oficial de justiça, da Polícia Federal, do Globocop e dos vizinhos urubuzando. Não sou inocente, meu convite tinha segundas intenções, sim. Mas, pera lá! Amar não é crime.
Sim, eu contatei todos os seus amigos, enviei postais aos seus pais além mar, cancelei as entregas dos seus fornecedores, dei férias aos seus funcionários, fechei suas unidades, implodi seu negócio, mas não foi por mal. Te mudei de academia, você não faz mais yoga. Agora, nós fazemos crossfit. Fiz planos pra ontem à noite e pras noites todas dos amanhãs todos. Fui ao tabelião de notas e passei meu nome pro teu e o teu pro meu. Carteirinha do plano, do Sesc, do clube.
Tudo o que é meu agora é teu e vice-versa. Verde agora também se tornou sua cor favorita. Invadi os sistemas, clonei os controles remotos do seu prédio, fraudei uma CNH, roubei um carro, entrei no seu prédio e parei, torto, numa vaga de idoso só pra te fazer uma surpresa: pintar meia-parede da tua sala com tinta verde chartreuse. Joguei fora suas bebidas do bar, nessa casa não se bebe mais! Levei flores e agora dentro da sua garrafa de Chivas Regal 25 anos repousam belas tulipas.
Eu fiz tudo certo. Tudo. Pergunto a Deus, ainda assim, o que posso ter eventualmente ter feito de errado. Só Ele pode me dizer onde foi que eu errei. Me tortura pensar que crime hediondo foi esse o que eu cometi cuja pena perpetua é o teu silencio.



